O que leva um funcionário de uma empresa a pintar o seu cartão identificativo com uma caneta de acetato? O que o faz colocar uns óculos Ray Ban na sua fotografia, uma fita absolutamente ridícula na testa e, na cara imberbe, uma farta barba? E sem medo de ser ridicularizado, apagar o seu nome e, no lugar deste, dar lugar a uma nova personagem? Terá este homem algum problema? Esclareçam-no… por amor de dEUS!!!

Quando a puta da dor de cabeça supera a vontade de acabar o dia. Quando o trabalho traduz o guito e o guito não nos sugere nada para atenuar o puto do tédio. Religiosamente, o mesmo olhar para as horas sem dar tempo de iludir a memória. Lá fora, a vida vai sendo adiada – aliás, incessantemente! Até ao rodar do torniquete, sou mais um número situado na ordem dos milhares; extramuros, sou um algarismo pequeno para ti; encurtado com o interagir das nossas vontades. Por vezes, somos só o 2… Mas atrás do torniquete, o cômputo é elevado e sou absolutamente irrelevante para quem de perfil megalómano.

Olha-me nos olhos. Vermelho sangue, cor de erva. Estalo esbranquiçado. Beijas-me os lábios. Rasgados, expansivos. São carências camufladas. Vício brando, delicioso. Sente-me nas palavras. Versáteis, cruas, atordoadas. São minhas e tuas. Emendo distorcido de uma vida. Meneios habituais compõem a minha refeição. Sou o que fumo. Semente pura, ressequida!
Os latidos dos nossos cães serão ensurdecedores. Do alto da elegância da lealdade, as suas pernas fraquejarão e a queda será inevitável. Assistiremos a uma nova era. Caças não tripulados controlarão qualquer suspeita terrorista: as nossas emoções! Nos cérebros dos nossos filhos serão introduzidos chips capazes de lhes vidrarem os olhos - obedecerão que nem cães… Os latidos serão então nossos. Os livros serão entregues ao pó das prateleiras. Embalaremos quem? Nós próprios? Comeremos a ração dos cães falecidos e testemunharemos a deslealdade dos rebentos a vir. Os nossos ossos serão ruídos por eles. A despedida começou e os companheiros de língua perversa não pediram sequer resguardo. Quando os nossos cães tombarem, cairemos com eles…

Sente como os ossos te apertam. Como essa armação te fere intraderme. Sente agora a dor: vem de todo o lado! Olha as horas. Caminharás agora rumo ao colchão. Antes, relaxarás. Com o fumo, com o álcool, com olhar fixo no tecto. Um piso acima, onde se encontram as arrecadações, o vizinho mais novo fornicará, longe dos olhos dos pais, a jovem adolescente sardenta. Haverá sussurros e gemidos. Os que vierem, porém estarei distraído com o olhar fixo no tecto. A inventar capacidades de transparecer paredes. A lembrar-me do passado…
.jpg)
Uma atrás das outras as viagens subterrâneas. Inevitáveis: Veneno para a minha azia rotineira! Ao meu lado no metro é raro encontrar alguém que me inspire confiança. Apesar das personagens assustadoras que teimam em colar-se a mim, sentou-se um dia destes a meu lado uma criatura curiosa. Perfeita dentro dos seus trapos, também eles bonitos - note-se (!) -, e imaginei dizer-lhe: "És um raio de luz na catacomba metropolitana! Todavia, a sua estação surgiu primeiro do que a minha coragem...
A ideia não lhe sai da ideia: demissão, outra vida, uma nova manhã. A vontade é forte, tão forte. Acordar numa cama lavada; a janela a uma curta distância de uma paisagem pastoril. O contacto com as pessoas da pequena localidade onde agora viverás. Ou, quem sabe, partir além-mar à procura de uma vida feita de percursos. Qualquer uma melhor do que o coração apertado pelo esforço de se levar a vida fazendo o que não se gosta, contrariando o organismo numa sucessão de fretes: dia após dia. Quero uma nova manhã...
Assinar:
Postagens (Atom)